quinta-feira, 22 de março de 2012

Escritos da razão

A história termina assim: ela fecha os olhos e puxa o gatilho. As luzes se apagam e as cortinas se fecham. Depois ela volta pra ser aplaudida com o buquê de flores. Era tudo faz de conta. Ela sorri agradecida. Sem brilho nos olhos abandona o palco com as vísceras nas mãos e começa a encenação. Sorriso esmaltado pra cobrir uma alma descascada. Olhos pintados pra disfarçar o tom opaco das pupilas.

Aquele dia, no entanto, despistou o destino. Cambaleou por abismos. Na loucura, sorriu, dançou com um desconhecido, era o tempo, não houve afagos, só passos dispersos pela contramão e não havia mão que a segurasse. Até que Ele apareceu, não apenas pegou-lhe a mão, mas tomou-lhe a cintura. Quem os visse, pensaria que ele a roubava dela.

Ele era um quase. Estar com ele era algo muito parecido com beirar o precipício em alta velocidade, mas ela queria o vento na cara. Acelerava. Mesmo os olhos claustrofóbicos dela pareciam não se importar por ficarem presos naquele olhar cerrado de cílios caídos dele. Os beijos eram diabéticos, de lábios hipertensos. Alta tensão. Dois fios descascados.

Eu, razão, quis ser senhora de seu destino, mas ela disse não. Eu a teria protegido, mas para ela a graça era o risco. Ela queria o estrago. Desafiava o paladar a sentir qualquer dissabor mais intenso que o amargo que já tinha na boca. Brincava de se apaixonar como quem aperta o gatilho num desses jogos de azar. Ela sabia que um dia o disparo seria certeiro nessa roleta russa.

Em um dos disparos, Eu fui Ela. E Ela era... Eu, só que na terceira pessoa. Na loucura fui Nós em momentos a sós. Ela quis ser Dele. Eu só queria estar com Ele, mas não achava as colocações pronominais adequadas.  Mesmo sabendo que os sentimentos, sujeitos ocultos, nem sempre fazem parte das orações insubordinadas, eu poderia ter me apaixonado, na terceira pessoa, claro! No fim das contas, não puxei o gatilho, mas mantive os olhos fechados.

6 comentários:

Andréia Félix disse...

'Brincava de se apaixonar como quem aperta o gatilho num desses jogos de azar'.

Então, faça curso de tiro ao alvo. Acerte onde você tem vontade.

Nem toda brincadeira precisa ser desastrosa. Mas saia se ficar perigoso.

Anônimo disse...

Eu tb quero me inscrever no curso do tiro alvo!!! hahahhahaha

Gis, só me vem uma coisa na cabeça depois do texto:

'Importuna Razão não me persigas...

se a lei do Amor, se a força da ternura
nem domas, nem contrastas, nem mitigas...

deixa-me apreciar minha loucura'
(Bocage)

Bruna Pellegrini

Anônimo disse...

No curso de tiro ao alvo treina-se tiro para acertar o alvo, e nada mais.

Deixe a menina brincar de puxar o gatinho cara Felix.

Ela pode errar 10 tiros sem alvo, mas uma vez, talvez só uma vez, ela acerte o não alvo.

Não se tem bônus sem ônus né?

Madson Hudson disse...

Puxar o gatilho de olhos vendados é a cabra cega da relação.

Aquela excitação básica de saber que existe a possibilidade de acertar o alvo ou não.

Mas, talvez pela praticidade do revólver - basta apenas puxar o gatilho - essa excitação se concentre mais no pensar e não na excitação dos braços procurando o vazio, ali, solitários em busca de outros braços.

Fica minha opinião: uma alma descasdada vale mais que uma desencanada do jogo.

Beijos,
Madson Moraes

Anônimo disse...

Em certos momentos da vida, tudo que queremos é correr em ala velocidade à beira de um abismo, esquecer a razão e entregar-se sem pensar às emoções, sentir o coração bater forte e em cada batida a certeza de estar vivo...
Na verdade acredito que somente o risco de morte nos mostra verdadeiramente o que é vida e principalmente, estar vivo, viver na primeira pessoa, sentir a emoção de cada verbo!

Unik Tanpa Nama

Daniel Franco disse...

A vida real é o palco ou o palco é a vida real?
Vivemos a vida ou é ela que nos vive?
Talvez haja um pouco de tudo ou um pouco de nada. Puxar o gatilho pode ser o primeiro passo.