terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Alguém pare o mundo que eu quero descer"

Era uma tarde fria, típica do inverno daquele ano. Ela poderia, embora não tivesse tentado ainda, gritar. Permaneceu silenciosa, ensimesmada, tão sucumbida em seus pensamentos que não havia jeito de ser resgatada. Ia rumo a qualquer lugar. As inúmeras possibilidades confabulavam um sorriso presunçoso, mas ela só se atreveu a fechar os olhos, sentir a solidão. Ascendeu um cigarro e ficou a observar os carros do alto de um viaduto. Lembrou-se da transitoriedade dos acontecimentos: todas as vezes que se apaixonou por coisas lugares e pessoas. Todas as vezes que sofreu por tudo isso nos encantamentos e desencantamentos, ganhos e perdas da relatividade oscilante do tempo que, assim como os carros, passa apressadamente, lentamente na memória.

Sem mais o cigarro queimou-lhe os dedos como que para acordá-la. Ao arremessá-lo longe pôde ainda ver a última faísca apagar-se na trajetória retilínea até a avenida. Enlevada viu: os carros não pararam, as pessoas sequer olharam e o cachorro continuou a dormir. As peças, partículas elementares de uma grande engrenagem, colaboraram suntuosamente com o descaso do acaso. O grito abafado da menina ecoava por dentro: “Alguém pare o mundo que eu quero descer”.

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