segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ensejo

Quem faz poesia
tem como instrumento a tristeza
Lida com a dor de existir a cada palavra
É estranho ver outras pessoas
Querendo ler minhas vísceras
*Imagine só!
A verdade é que não quero que me vejam
Agonizando no papel
O pouco que sobrou ensaia palavras mal trapidas
Fora da linha e sem pontuação
Espera o sepulcro afável
Sem lágrimas de comiseração

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Escrevi, mas não mandei

Um dia desses, sem querer, descobri que a dor é menos sofrida em rimas baratas, às vezes só frases sem sentido. Pieguice? Pode ser. Tanto faz. O fato é que depois dessa apoteose passei a reproduzir inúmeros rascunhos de pensamentos e sentimentos que jamais chegaram aos seus destinos, desconhecem os olhares de seus verdadeiros donos, alguns se perderam de tal modo, que já nem me lembro mais a quem ou porque escrevi, são quase palavras mortas. Miseráveis que perderam o sentido, não têm uma razão, coisas disformes que já não servem mais nem para guardar minhas lembranças. Outros, em contrapartida, arranham meus pensamentos cobrando seus momentos, como se replicassem uma vida. Pior que os frutos da dor, são filhos da expectativa.

E assim, como quem reserva uma parte da casa para guardar as inutilidades, criei um espaço no blog só para entulhar os textos que já não me servem mais, os que nunca serviram, mas que, ainda assim, não pude jogar fora. Quis fazer desses verbos que nunca tiveram ação, nunca foram meus ou de alguém, assim, de quem os quiser, inclusive de ninguém. Logo que a falta de coragem parar de me encher posto o primeiro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Alguém pare o mundo que eu quero descer"

Era uma tarde fria, típica do inverno daquele ano. Ela poderia, embora não tivesse tentado ainda, gritar. Permaneceu silenciosa, ensimesmada, tão sucumbida em seus pensamentos que não havia jeito de ser resgatada. Ia rumo a qualquer lugar. As inúmeras possibilidades confabulavam um sorriso presunçoso, mas ela só se atreveu a fechar os olhos, sentir a solidão. Ascendeu um cigarro e ficou a observar os carros do alto de um viaduto. Lembrou-se da transitoriedade dos acontecimentos: todas as vezes que se apaixonou por coisas lugares e pessoas. Todas as vezes que sofreu por tudo isso nos encantamentos e desencantamentos, ganhos e perdas da relatividade oscilante do tempo que, assim como os carros, passa apressadamente, lentamente na memória.

Sem mais o cigarro queimou-lhe os dedos como que para acordá-la. Ao arremessá-lo longe pôde ainda ver a última faísca apagar-se na trajetória retilínea até a avenida. Enlevada viu: os carros não pararam, as pessoas sequer olharam e o cachorro continuou a dormir. As peças, partículas elementares de uma grande engrenagem, colaboraram suntuosamente com o descaso do acaso. O grito abafado da menina ecoava por dentro: “Alguém pare o mundo que eu quero descer”.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O primeiro é só o primeiro

- O primeiro tem que ser especial, afinal, é o começo de tudo!
A menina filosofava beirando a pieguice.

- Nada! O primeiro é só o primeiro, especial mesmo é o último.
O desconhecido redarguiu como quem dá a palavra final.

Diante da imposibilidade de resposta só guardei o diálogo. Pois bem, ilustre descohecio, o primeiro, que até então também é o último, dos meus desatinos.

Mas o que hei de fazer se sou toda sensações? Transbordo em palavras, me edifico e desmorono roubando aforismos em frases sem nexo. Até meus silêncios guardam a sonoridade do tanto que tenho a dizer e não sei como. Meus verbetes reverberam minha confusão: montando e desmontando, constantemente, como peças de lego. A verdade é que vivo aos pedaços tentando me juntar.

Eis que se deu o “Verborragia”: cantinho de despautérios que guarda a torrente de palavras que jorra dos meus pensamentos. Letrinhas que se ligam, transformam e tomam a forma de seres disformes, conforme a tresloucada que vos fala.