domingo, 15 de janeiro de 2012

Espasmos da Memória*


Naquele dia tudo foi dito por arquejos. Quantas confidências não guardava aquela respiração entrecortada? Boca com boca. Arrepio na nuca. Os desejos, insubordinados, traindo a razão. As mãos vinham vestindo o corpo, assim, justas, justas, desfazendo- se dos botões. Era pele em busca de pele.

Senti a saudade morrendo. Com todo aquele ardor se apossando de nossos corpos, a loucura fez as vezes de conselheira. Foi entre beijos metafísicos que nos abandonamos na morada do proibido, ou escada de incêndio da faculdade.

Aquela onda de calor molhado parecia me tragar. O chão fez-se convidativo e as mãos já eram escravas de nossos quereres. O tempo se esvaindo em gotas de suor e as pernas embaralhadas nem percebiam, mas a moça da limpeza sim: - O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI?!?

O coração aos pulos. O silêncio. O riso incontrolável. A falta de jeito pra descer as escadas enquanto nos vestíamos. E te beijei no fim da fuga, lembro. Espasmos da memória que já desisti de tentar controlar. Cuido bem da falta sua.
(C+E)³

* Um relato superficial de alguém que não viu, mas ouviu atentamente. Minhas Histórias dos Outros.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Pacto

- Pronto! Um grau de intimidade foi estabelecido!
- Ahh... É(...) É(?!)
- É! Não tá escutando? (...) É o silêncio, pode-se dizer que o primeiro.
- Claro que não, teve outros.
- Ahhh... Mas só você ficou em silêncio enquanto eu falava, assim não vale. Silêncio íntimo é pleno e compartilhado sem embaraços.
- ...
- ...
-Tá, agora pode falar.
- ...
- ...
- ((rs+))
- ((rs+))

...E foram sorrisos com dentes sérios.

Tá ai...


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sabedoria Popular


Srta. Patetitica: - Blábláblá...  Blábláblá... Blábláblá... Tititi... Tititi... Tititi... Entende?
Sr. Rabugêncio: - Mas, minha querida, não masturbe a tristeza porque ela goza na sua cara!
Srta. Patetitica, roxa, quase cai da cadeira feito desenho animado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Dia de Finados


O cursor pulsando na tela vazia. O coração piscando no corpo oco. Fulaninha vomitava, do muito beber. E escrevia, do pouco viver. E escrevia como quem vomitava. E vomitava como quem escrevia. Um amor havia acabado de desviver, assim, levava com ele a razão de ser. Era a primeira vez que ela deixava um amor realmente morrer. No inventário constava uma dívida de meia dúzia de palavras não ditas e uns três verbos sem ação. Tinha quatro ou cinco lembranças, empregados sem remuneração, e a saudade, interditada, herança de ninguém.

Foi com as juras e promessas que pôs-se a cavar a terra como quem arranca as entranhas. Parecia que o buraco convidava ela e não o morto. Quis chorar, mas riu no desatino dos dementes. Lançou-se a cavar mais e mais fundo. E arrancava a terra com os dedos em carne viva. Terra e sangue já eram uma espécie de emplastro. Sujou as roupas, o cabelo, tudo era uma lama só. Na loucura com que cavava, sem perceber, desenterrava antigos amores. Jovens, velhos, alguns morreram sozinhos e ela nem tinha feito conta, outros, ainda agonizando, seguravam-na pelo tornozelo, arranhavam suas pernas, queriam reclamar vida, a deles, a dela.

Surpresa, mas não assustada, ficou, não quis correr. O que mais a comoveu foi ver aquele pequenino, tão gracioso, mal abria os olhos, pobre pagão que ela não batizou. Com o pequeno no colo fez-se toda saudade. Foi o primeiro que matou com as próprias mãos. Andou entre aqueles amor(tos), ali, exumados pela dor dela e se demorava ao lado de cada um com ares de viúva inconsolável. Velava a cada um com saudades ardorosas. Despedia-se de cada um como jamais pensou que poderia. 

É bem verdade que, dados momentos, Fulaninha reconheceu-se fraca, pensou que também morreria por ali. Estirou-se amortizada ao lado dos amores e, não sem desespero, esperou que isso acontecesse, tamanhas eram as sofrências. Cada fisgada lhe consumia o juízo, mas a razão estava de vigia, ruminando sensatez. Quando o último deu o suspiro derradeiro no peito dela, levantou-se dolorosamente aliviada. No fundo ela sabia que embora amor(tizados), amor(tos), seriam sempre amores e viveriam nela. Mas a cidade ainda guardava muitos armários, as rodoviárias e aeroportos teriam ainda muitos encontros e despedidas, os dentes aguardariam muitas piadas, os cabelos cresceriam e encurtariam desmedidamente na espera de outros tantos afagos. Ela ainda teria outros lindos sonhos dormindo em diferentes mochilas e, na hora certa, saberia abrir os braços para novos abraços. Foi assim, vinicianamente, que Fulaninha entendeu que, de fato, era possível sobreviver, embora não sem dor, à morte de todos os amores, mas realmente sentiu-se morrendo só de imaginar a perda de todos os amigos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Volta às aulas*


A cada passo a certeza, embora o medo e a ansiedade também estivessem lá. Uma sensação libertadora me tomava por inteira enquanto era instigada por toda aquela luxúria. As pessoas que passavam apressadas em seus carros em plena avenida sem muito movimento nem de longe suspeitavam do que acontecia no quarto andar daquela faculdade. Ele nem era mais aluno e eu nunca havia sido. Em meio à penumbra da sala vazia me abandonei à libido que nos consumia. A qualquer momento alguém poderia chegar, mas isso não importava, não naquele momento. Poderia o coração parar de bater de tanto palpitar? Não, não parou. Experimentamos uma sensação cujo prazer só é conhecido por quem já cometeu um pecado.  Confundimos nossos corpos e suores. Misturamos nossas pernas numa dança de quadris içados. Eram movimentos desvairados. Foi entre murmúrios ao pé do ouvido que vestimos as roupas e compactuamos nosso segredo em silêncio. É por isso que fica aqui entre nós.
A.M.

*Atendendo a pedidos graciosos, cá está mais uma das Minhas Histórias dos Outros. 'Lugares Públicos' está de volta. Leia também:
 - No escurinho do cinema
- Uma saída para emergência


quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Quem requenta        

             Sentimentos deve

  Estar pronto para

Digerir ressentimentos


Foi descendo cambaleante a escadaria que dava pro porão de si. Teve medo, mas não recuou. O cheiro forte de esquecimento lhe impregnava as narinas, era pior do que mofo, mas Ela suportava. De repente fez-se silêncio de fora pra dentro. Toula ficou toda quietude. O lado de lá ia ficando longe, tudo não passava de eco distorcido, distante, distante, quase silente. E Ela não entendia, ouvia os cabelos crescendo. Escutava os pelos das axilas também. Parecia que tudo crescia pra dentro. Ela pensou que estava engolindo o mundo todo sem mastigar. 

E aquela vertigem. Os olhos iam ficando nus e tudo parecia se revestir daquela sensação. Percebeu que as lembranças esquecidas despertavam quando viu o primeiro vulto. De pronta saltou saudosa, mas recuou horrorizada. Estavam todas transfiguradas, aquelas memórias, sujas, sujas, rasgadas, faltando pedaços, amassadas, descoladas, desdobradas em amarguras. O estômago era todo coração. Toula inteira parecia pulsar. Tudo se embaralhando nos pensamentos e Ela não sabia explicar. 

A língua, quente e úmida, estava envolta por uma linguagem oca. A falta de palavras sentenciava os ouvidos feridos que, resignados, tateavam aquele silêncio com a curiosidade de uma criança que nunca enxergou. Toula fazia questão de separar ontem de amanhã feito quem separa joio do trigo e nem reparava que o agora se tornava uma rachadura. Um grande buraco negro sobrava e ia engolindo tudo com uma voracidade digna da saudade e tão dolorida quanto a decepção. 

Aquela frase. Aquele som. Como era mesmo? Uma veZ... E contava. E morria de rir. E morria de raiva. E morria de saudade. E (re)contava a história, assim, mil vezes, imagilembrando, por que só lembrar não bastava. E exagerava, bruta. Passou a prostituir as lembranças, a violentar o passado, a contrabandear sentimentos. Tudo a troco de nada. Quando cansava, lavava as mãos com nojo e a certeza de que nunca fora e partia. Tinha um medo danado de que aqueles momentos virassem doença, que se impregnassem nela feito sujeira e mal percebia a lama da fossa lhe tomando os joelhos. Sim, era violento demais existir. Toula deixava de ser.